segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Trechos I e II

Abaixo dois trechos do “Os Nomes na Máquina” publicados originalmente no sítio da Editora Canto Escuro, na ocasião do lançamento da obra, e numa das capas do livro:

I

“Às vezes meus irmãos e eu nos dirigíamos até o quintal. Tratava-se de um terreno de chão de terra onde se via a bela horta que a mãe cultivava com zelo. Subíamos na imensa mangueira que crescia rente ao muro dos fundos. Do alto da árvore se tinha privilegiada vista para o mar. O panorama inspirava as mais diversas brincadeiras. Só retornávamos a casa no momento em que nossa mãe chamava insistentemente a fim de que tomássemos banho.
De pé sobre o assento do sofá – que já era velho -, escorados de barriga no encosto macio e barulhento do móvel; enquanto se aguardava a hora de cada qual enfrentar a gelada água do chuveiro improvisado, tanto os que se encontravam “na fila”, quanto os irmãos que já tinham terminado o banho, seguiam contemplando o oceano através de uma janela de madeira.
A visão que se tinha dali não era tão privilegiada quanto a que se vislumbrava do alto da árvore. Todavia era fascinante ter o mar à disposição, como se fosse uma infinita expressão da nossa varanda.”

II

"Não vê que o filho-da-puta do vendedor de porcarias resolveu se sentar ao meu lado? Ele fixou os olhos em mim com a maior cara de tacho, subitamente tomou a decisão, caminhou com seus passos vagarosos, deu um aceno ridículo e soltou largamente o peso do corpo na poltrona ao lado.
Era só o que me faltava acontecer! A fim de que o muambeiro logo percebesse que eu não queria conversar, sequer retribuí ao aceno. Virei o rosto em sinal de descontentamento
e altivez e tentei me distrair com o que se via através dos vidros.
Por sorte o sujeito permaneceu em silêncio. Estendeu um pano sobre o colo e usou-o de amparo à porção de miudezas que a obrigação e necessidade de mostrar indiferença impediram-me de identificar. Então começou a torcer arames com um alicate bastante esquisito, dando formas a bijuterias de extremo mau gosto.
Pela primeira vez naquela viagem eu tinha algum motivo
para agradecer. Foi sorte o indivíduo se ocupar com suas infantilidades e manter o silêncio, pois o que se via através da vidraça não ateria a atenção nem mesmo do mais absorto dentre os seres vivos.
A “paisagem” era constituída por montanhas e mais montanhas. Umas altas e feias; outras, baixas, mas igualmente feias. Entre elas se situavam campos e lagos que não exibiam nenhuma beleza e uma infinidade de campos de plantações de milho e café – que se vê em qualquer canto do mundo.
O panorama era tão absorvente quanto aço."

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